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Uma breve reflexão sobre o amor
| por Eleni Rangel

Eleni Rangel

CRP:  06/19476-8

 

A sabedoria popular tem várias afirmações que dão pistas das nossas crenças a respeito do amor. Quem nunca ouviu ou mesmo se justificou com tais expressões:

“O amor é cego.”

“Matou por amor.”

“Morre de amor.”

“No amor e na guerra, vale tudo.”

 

Em sua canção “Monte Castelo”, Renato Russo também menciona conhecidos autores que falam de amor. Cita Camões em seu famoso poema publicado em 1598:

“Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.”

(apenas os versos citados na canção)

 

Renato Russo cita, ainda, um conhecido texto registrado na Bíblia, escrito pelo apóstolo Paulo, em sua primeira carta aos cristãos da igreja de Corinto, conhecido como ode ao amor: 

“Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria

É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece”

(apenas os versos citados na canção)

 

Ao observar as diferentes expressões que tentam dar definições sobre o amor, podemos perceber sem dúvidas que não é algo simples e, talvez, seja mesmo impossível definir o que é o amor. 

 

Se a sabedoria popular, como vimos, percebe no amor, características que tentam explicar comportamentos que muitas vezes são racionalmente incompreensíveis com a cegueira do amor, que justifica até matar ou morrer, nos versos de Camões percebemos sua ênfase nas contradições tão inerentes ao sentimento amoroso.

 

Já o texto atribuído a Paulo, obviamente falando do amor para além das relações românticas, mas ainda assim delas também, afirma que tudo que se não houver amor, nada terá valor, qualquer que seja a atitude ou intenção. Nesse texto o autor dá algumas características de como se manifestaria o amor. Além das mencionadas por Renato Russo na canção: o amor conhece a verdade, é bom, não quer o mal, não é invejoso ou vaidoso, o texto registrado na Bíblia cristã traz outras características: o amor é paciente, não é orgulhoso, não é inconveniente, não procura seus próprios interesses, não se exaspera, não é ressentido, não é injusto, não é ciumento, tudo sofre, tudo espera, tudo crê, tudo suporta.

 

É certo que se trata de um ideal que, provavelmente, jamais alcançaremos. Aliás como a grande maioria das ideias relacionadas ao amor. Entretanto, podemos ter aí, algumas pistas interessantes a respeito desse sentimento perseguido por quase todas as pessoas.

 

Pensar o amor em nossos relacionamentos românticos, sim, pois um relacionamento amoroso pressupõe muito mais que amor para se sustentar, é um grande desafio em nossas vidas pois precisamos superar idealizações que geram expectativas irreais, romper com os mitos de gênero e, principalmente, ampliar nossa visão acerca da monogamia como única expressão de amor.

 

Amar não é algo que “cai do céu”. Amar é um investimento cotidiano num propósito: manter-se conectado aquela pessoa especial.

 

Se Camões expressa com propriedade as incríveis contradições que vive a pessoa apaixonada, e que nos fazem sentir realmente vivos, para Paulo o amor é uma decisão, um comportamento, uma ação. O amor é a decisão de agir em benefício do relacionamento. 

 

Assim, vejamos:

O amor é paciente: indica a intenção de não desistir “de cara”, dar outra chance

 

O amor é bom: procura sempre o bem estar da parceria, aquilo que contribui para a felicidade de todas as pessoas envolvidas na relação

 

O amor não é ciumento: compreende que a outra pessoa tem uma individualidade que precisa ser desenvolvida, estimulada e respeitada, e que isso contribuirá para o fortalecimento dos laços da parceria; que não há uma relação de propriedade entre as partes envolvidas

 

O amor não é orgulhoso: comparar amor não faz sentido, quem ama mais que quem. Assim não cabe pensar que seu amor é maior que o do outro, como também verbalizar isso

 

O amor não é inconveniente: não se trata de estabelecer regras ou atender estereótipos culturais, mas de comportar-se ou não de acordo com os combinados da própria relação. Você sabe exatamente como aborrecer seu companheiro ou companheira, não é? A ideia é não fazer esse tipo de coisa deliberadamente

 

O amor não é interesseiro: novamente o desafio é pensar para além de nossos desejos egoístas. Sem dúvida, não se trata de abrir mão de nossa individualidade e necessidade pessoais, mas de incluir também os interesses e necessidades da outra pessoa envolvida em nosso relacionamento amoroso.

 

O amor não se exaspera: exasperação ou irritabilidade é resultado de nosso egoísmo e, por isso, é sempre dirigida a outra pessoa. Se combatemos nosso egoísmo, como vimos no item anterior, provavelmente, reduziremos significativamente os episódios de irritação. Cabe aqui, porém, um alerta. A indignação contra a injustiça é necessária e não se trata de uma explosão egoísta.

 

O amor não é ressentido: a palavra ressentimento vem de um termo grego usado pelos contadores que significa literalmente “manter um cálculo matemático”. A escrituração contábil é um registro feito para não se esquecer de nada. O amor não mantém uma folha corrida com o registro de todas as ofensas que as pessoas nos fizeram. Sabe aquela mania de “desenterrar defuntos” cada vez que o casal tem uma discussão? O amor não faz isso.

 

O amor não é injusto: aqui o desafio é buscar equidade, justiça no sentido mais amplo para todas as pessoas envolvidas na relação. As questões relativas à divisão de tarefas, por exemplo, é um desses aspectos da manutenção da justiça em nossas relações amorosas. Não é justo que um seja sobrecarregado em benefício do outro

 

O amor conhece a verdade: trata-se de onde baseamos nosso relacionamento. Seja um relacionamento amoroso ou não, se não for baseado na verdade, honestidade, sinceridade, ele provavelmente não terá um desfecho favorável. 

 

O amor tudo sofre, tudo espera, tudo crê, tudo suporta….

Epa!!!! Que conversa é essa???? Antes de continuarmos, é necessário fazer uma pausa. 

 

Se fizermos um recorte de gênero, vamos observar que a afirmação acima reforça algumas características bastante valorizadas e estimuladas, além de tidas como fundamentais para que uma mulher conquiste e mantenha um relacionamento amoroso, não é? Mas, é fundamental destacar que não se trata de suportar ou sofrer qualquer forma de violência.

 

Portanto, quero que você ligue as antenas para esse aspecto das construções de gênero a que estamos submetidas, submetidos e submetides em nossas compreensões acerca do que é “desejável” num relacionamento romântico para que não se deixe levar pelos estereótipos impostos culturalmente a nós. Isso serve também para o que vimos antes. 

 

O amor tudo sofre: o original grego de onde extraímos o texto usa uma palavra que significa algo semelhante a um telhado, ou seja, um telhado cobre, suporta o mau tempo e protege as pessoas que estão debaixo dele. Essa palavra também é usada para representar a segurança que têm aqueles que se encontram dentro de um navio, separados das águas do mar. Assim, a ideia aqui pode ser compreendida como dar segurança e conforto.

 

O amor tudo crê, tudo espera: indica que a pessoa que pratica o verdadeiro amor sempre está disposta a acreditar no melhor das pessoas, que confia ao invés de suspeitar, que acredita na bondade fraternal. É melhor errar por ter confiado demais, do que errar por não ter confiado absolutamente.

 

O amor tudo suporta: trata-se de acreditar no outro e lhe dar suporte em seus projetos e apoio em suas lutas. Não diz respeito a “aguentar” qualquer coisa, mas de dar suporte, apoiar. Quantas vezes alguém não conquistou um objetivo porque faltou quem lhe desse suporte, apoio?

 

Muito já se escreveu sobre o amor e, certamente, ainda se escreverá. Esse é um sentimento inerente ao ser humano, experienciado desde a mais tenra infância através dos cuidados recebidos seja pela mãe, pelo pai ou mesmo por algum outro cuidador. Nossas primeiras experiências com o amor estão profundamente ligadas ao cuidado, às atitudes de alguém que demonstrava seu amor por nós pela maneira como falava conosco (ainda que não compreendêssemos intelectualmente) e, principalmente, pela maneira como agia conosco.  Nossos anseios românticos podem estar associados a busca de reviver essas primeiras experiências prazerosas. 

 

Sendo assim, podemos pensar que reproduzir atitudes de cuidado, ações que expressem compromisso e consideração pela pessoa a qual amamos, pode fortalecer os laços de amor e gerar experiências profundamente prazerosas e contribuir para relacionamentos gratificantes.

Eleni Rangel

CRP:  06/19476-8

 

Eleni Rangel trabalha desenvolvendo o processo terapêutico como uma caminhada compartilhada e segura rumo a seus objetivos e a superação de suas dores em busca de sua melhor versão. Psicóloga há 38 anos, atendendo jovens, adultos e casais, com larga experiência na atenção a dependentes químicos e suas famílias, bem como pacientes psiquiátricos. Conheça mais seu trabalho no instagram @elenirangel

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Administrado por Tatiana Perez (CRP 07/26032)
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