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Os três tipos de briga recorrente num casal | por Diana Goulart

Diana Goulart.

 

Esther Perel and Mary Alice Miller (tradução livre por Diana Goulart)

O artigo original está em https://www.estherperel.com/blog/the-relationship-fights-you-keep-having 

 

Sabe aquela hora em que a briga do casal atinge níveis explosivos? E então você se pergunta pela milésima vez COMO ELE/ELA ESTÁ FAZENDO ISSO DE NOVO, SABENDO O QUANTO ISSO ME IRRITA? 

Os pratos sujos empilhados na pia.

Horas a fio gastas nas redes sociais, enquanto falta tempo de qualidade para nós.

Decisões importantes tomadas sem combinar antes.

Aquele tom de voz que faz você se sentir idiota.

A transgressão feita no passado, mas que continua presente no quarto.

O ciclo de julgamentos feitos mutuamente, que enfatiza e esquenta uma discussão banal.

As discussões políticas que terminam em COMO VOCÊ PODE PENSAR ASSIM?!

É o soco emocional que chega a nos derrubar.

Gatilhos que puxamos e não conseguimos desarmar, depois que trazemos à tona nossos pontos mais vulneráveis. 

 

Em todas estas situações, nós nos deixamos levar pelo assunto que provocou a briga, e começamos uma escalada em espiral que toma conta do nosso batimento cardíaco e sistema límbico. E aí estamos completamente esgotados e sem condição de chegar a nenhum acordo.

 

Mesmo que nosso desejo seja de receber um abraço gostoso daquela mesma pessoa que a gente está achando insuportável. 

 

A razão da briga não é esta que você imagina

 

Geralmente o motivo que provocou a briga (a louça suja, as redes sociais, a política etc) tem pouca importância.

 

A verdadeira questão diz respeito às profundas necessidades afetivas, vulnerabilidades e crenças que são atingidas dia após dia.

 

Quando uma situação nos afeta de forma tão intensa, é porque ela ressoa com alguma outra experiência que tivemos anteriormente. 

 

Citando o Dr. Marion Solomon e Dr. Daniel J. Seigel, em Healing Trauma, “quanto mais intimidade temos com alguém, mais provável é que emoções antigas sejam ativadas junto com defesas primitivas. A terapia ajuda os parceiros a reconhecer sua sensação de vulnerabilidade, descobrir suas raízes, suportar as ondas de emoção, e encontrar formas de lidar com a dor subjacente.” 

 

Se ficamos irritados porque o parceiro não desgruda do tablet quando vamos deitar, o problema não é ele continuar lendo. É que se repete um padrão de negligência que já vivenciamos. Se a parceria acha tempo para jogar tenis toda semana com os amigos, mas não se interessa em planejar uma noite romântica na semana, isso pode ativar nossa insegurança – ele/ela não quer estar comigo de verdade, ou eu não sou boa/bom o bastante para ele/ela. Nestes dois casos, estes gatilhos agem como um funil, impedindo-nos de ver alternativas e ativando nossos esquemas de abandono e fracasso.

 

Quando estes gatilhos se repetem ao longo do tempo, eles criam uma lente pela qual nós passamos a ver toda e qualquer interação. Assim, se a gente acha que a parceria não se importa conosco, então tudo que ele/ela fizer será interpretado conforme esta lente. E do mesmo modo, quando achamos que somos amados, tendemos a ver por este ângulo a maioria do que a parceria faz ou diz.

 

Todos já passamos pela situação de defender com unhas e dentes um ponto absolutamente insignificante para ter causado tanta irritação, e também pela situação de explicar detalhadamente porque estamos ofendidos, mesmo sem saber exatamente a causa. 

 

Que tal a gente fazer uma pausa, respirar fundo, e tentar trabalhar juntos para identificar o que realmente está acontecendo? Geralmente podemos resumir em 3 possibilidades.

 

VAMOS IDENTIFICAR AS 3 DIMENSÕES OCULTAS QUE ALIMENTAM A MAIOR PARTE DAS BRIGAS DE CASAL

Você já ouviu a expressão “você está vendo só árvores, e não a floresta”? Ela significa que estamos tão focados em detalhes individuais que perdemos a noção do todo na imagem. Identificar qual dimensão oculta está elevando a temperatura das brigas do casal nos auxilia a sair da floresta, para manter a metáfora. 

 

O pesquisador e terapeuta de casais Howard Markman explica que existem muitas dimensões ocultas atuando por baixo da maioria dos impasses nos relacionamentos. Mas se começarmos apenas com os três primeiros, já podemos ter um grande efeito sobre como brigamos – e como podemos sair da briga. 

  1. Poder e Controle – exemplos de queixas:
    1. Você me desautoriza na frente das crianças.
    2. Eu tenho que falar com você antes de comprar qualquer coisa, porque ganho menos que você. Eu sei que você não me pede pra fazer isso, mas nem precisa. 
    3. A gente só faz sexo quando você quer.
  2. Cuidado e proximidade – exemplos de queixas:
    1. Porque você não me apoia quando estou ansiosa, em vez de me fazer sentir pior por não saber enfrentar isso?
    2. Porque sou sempre eu que procuro você? Eu me aproximo e você se distancia.
    3. Porque nós paramos de fazer sexo?
  3. Respeito e reconhecimento – alguns exemplos:
    1. Você sai com seus amigos e nem pergunta o que eu vou fazer.
    2. Você nunca reconhece minhas conquistas profissionais.
    3. Você não se dá conta do quanto eu trabalho em casa.

 

Toda briga existe dentro de um contexto. Em toda briga, existe mais do que uma destas dimensões, fazendo a gente duvidar na nossa saúde mental e do relacionamento. Mas se usarmos estas categorias como estrutura para identificar a origem dos nossos conflitos, podemos achar uma linguagem que inspire uma conversa mais produtiva. 

 

PRECISAMOS CRIAR NOVOS PADRÕES PARA SAIR DOS ANTIGOS 

 

No calor do momento é difícil lembrar, mas uma reação muito irritada geralmente significa que existe um vínculo forte. Este vínculo pode ser melhor utilizado. Para isso é preciso desenvolver a habilidade de identificar e nomear as dinâmicas subjacentes que servem de pano de fundo para tantas brigas. Trabalhando juntos de forma saudável para compreender como estes padrões se formaram e atuam, nós mudamos a direção de nossa trajetória relacional e passamos a nos ajudar mutuamente com estas questões. 

 

Sair deste círculo vicioso é um processo de desmontar estas dinâmicas estabelecidas, fossilizadas, e revertê-las aos poucos, em micromovimentos. Cada passo leva ao próximo. No início parece que não é natural entrar nesta coreografia – articular nossos sentimentos enquanto conscientemente damos espaço para a perspectiva do outro – mas todos os relacionamentos são uma dança. Em algum momento vai ficar mais orgânico dizer “Eu estou com um sentimento, o que não significa que você está provocando isso, mas eu preciso dizer pra você” ou então “Querida, eu vou sair com alguns amigos hoje à noite, mas pensei em fazermos juntos algo especial amanhã – o que acha?”

 

Criar novos padrões de auto-conhecimento/auto-percepção e de afirmação do outro é a chave para melhorar as dinâmicas relacionais. 

 

Lembrem-se que o processo molda a experiência. A forma é mais importante que o conteúdo. 

Diana Goulart.

 

Psicóloga clínica  (PUC-RJ), carioca, atendo em Laranjeiras e online. Depois de graduada, trabalhei também com educação musical (CBM-RJ). Há 10 anos voltei a me dedicar exclusivamente à clínica. Fiz Especialização em Terapia Cognitivo Comportamental e Formação Clínica em Terapia Cognitiva Sexual. Sou apaixonada por trabalhar com relacionamentos afetivos de todos os tipos, e também com questões da sexualidade feminina. Veja mais em www.dianagoulart.com.br e @dianagoulart.psi 

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