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A influência dos padrões culturais nas relações conjugais | por Dulcinea Leão

Dulcinea Miranda Pinto Leão

CRP 03/15560

 

No útero da mãe o indivíduo obtém todas as necessidades: desconhece a fome, o frio e a falta de aconchego. Nascemos e precisamos respirar com os nossos próprios pulmões: uma angústia a sensação de desamparo nos invade.

 

Somos introduzidos num mundo cheio de padrões de comportamentos. Aos poucos passamos a agir e se comportar de acordo com a expectativa social ou familiar. A singularidade não mais existe, o condicionamento cultural impõe formas de diminuir o desamparo, e a busca na relação amorosa, muitas vezes, se torna uma relação simbiótica de apego ou desolação. 

 

E assim Maria, no ano de 1988, sem experiência alguma, aos dezesseis anos casou-se com Roberto, com vinte e um anos, ambos jovens. Tiveram dois filhos e relata que foi bom o relacionamento nos primeiros dois anos.  Maria sempre trabalhou, sonhadora, tinha na imaginação que o casamento era para o resto da vida.  

 

Essa amostra institucional do casamento ainda traz a ideia de felicidade para muitos homens e mulheres.

 

Mesmo em 2021 os rituais do casamento se confundem com a relação entre duas pessoas, suas aspirações individuais incompatíveis, normas sociais de condutas são impostas, para manter os valores tradicionais.   

 

A infelicidade conjugal entre Maria e Roberto reinou por duas décadas, mais ou menos. Ele trabalhava viajando, era um homem hostil, quando retornava para casa seu repertório era de brigas e insatisfação com a mulher e os filhos, suas palavras eram “vocês não servem para nada”, “não sei por que estou aqui ainda”. Já Maria era aprisionada pela sua própria crença de acreditar em mitos machistas  como  “ruim com ele, pior sem ele” e “trocar de marido é trocar de defeito”. Falas que a sociedade ainda prega, em tom sutil, mas cruel.

 

A mudança na forma de pensar e de viver de maneira diferente gera medo, ansiedade, desconfiança e pânico. Além disso, muitos ao seu redor contribuem com esse contexto:  família, amigos, escola e meios de comunicação.

 

Será que é mais fácil optar pelo conhecido, suas frustrações, um casamento infeliz entre quatro paredes, um sofrimento angustiante de doer na alma? Qual representação está incutida dentro de você: a foto bonita no álbum de família, a dor do impossível, viver na solidão ou deixar de ser amado?

 

Após duas décadas de casada, Maria desenvolveu uma doença até então desconhecida, passou por vários especialistas e não descobriram, foram alguns diagnósticos inválidos como a doença de Parkinson sendo medicada por um ano e não melhorava. Cansada procurou mais um especialista em neurologia, fez todos os exames possíveis e descobriu que o que tinha era uma doença rara, degenerativa, chamada Distonia. O diagnóstico, porém era leve; seu estado emocional era grave.

 

Nessa ocasião Maria tentou ser acolhida pelo esposo, afinal eram duas décadas de convivência,  mas ele se negou: “quero que você morra”. Ela, cansada de viver, achando que iria morrer logo, pediu o divórcio. Muitas vezes, o parceiro (a), não satisfaz nem preenche as necessidades afetivas e sexuais do outro, mas o dolo do rompimento com suas fantasias idealizadas pelo par amoroso, seguido de baixa autoestima e as inseguranças pessoais reaparecem, como uma devastação na vida daquele que optou por separar. 

 

Maria chorou por meses a fio, quando viu que não iria morrer. Foi quando procurou ajuda terapêutica, entendeu que o primeiro relacionamento é consigo mesma, que existem muitas maneiras de se viver o amor. Não precisa ser o mais tradicional, o condicionamento cultural dificulta a emancipação e a liberdade de escolha quando indica apenas um caminho para o relacionamento.

 

Após um período longo de sofrimento, Maria, portanto, percebeu que o alívio é maior, a sensação de renascer de novo e que não existe fórmula mágica para lidar com as relações. Ficar sozinha não é sinônimo de solidão e assim como durante um eclipse solar o sol fica total ou parcialmente encoberto pela lua e sua duração é pequena, mulheres e homens podem brilhar individualmente e se relacionarem como um eclipse, sem excluir seus próprios brilhos.

Dulcinea Miranda Pinto Leão

CRP 03/15560

 

Psicóloga, na cidade de Feira de Santana-Bahia. Abordagem Psicanalítica. Experiência jurídica, social e clínica. Atuei na Vara de Violência Doméstica, no atendimento aos homens com medida protetiva; no CRAS- Centro de Referência da Assistência Social, e Atendimento na clínica. Graduada em Psicologia pela FTC – Faculdade de Tecnologia e Ciência; concluída em dezembro de 2016. Extensão em Psicoterapia Breve Operacionalizada: A escuta Psicanalítica e Pós Graduanda em Terapia da Constelação Familiar Sistêmica.

@dulcineamiranda.psi

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Administrado por Tatiana Perez (CRP 07/26032)
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