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Casamento: Conexão do passado com o presente. | por Alice Camargo

Alice Camargo

 

“Eram tão felizes que nem percebiam que eram pobres”.

 

Essa observação foi feita por um pai que havia concordado em quebrar a tradição de escolher o marido para sua filha, permitindo que tal escolha fosse feita por ela quando ele sentiu a existência do amor dela por um alfaiate. Cenas bem emblemáticas na peça musical “Um Violinista no Telhado – Teatro”, com José Mayer.

 

Em seu livro SEXO NO CATIVEIRO, Esther Perel se refere à obra mencionando quando Tevye, o pai da moça, consegue ter compreensão de que ”este é um mundo novo”, onde os casamentos devem acontecer por amor, não mais uma questão política como vinha acontecendo no “mundo antigo”.

 

“No passado quando o casamento era uma instituição mais pragmática, o amor era opcional. Essencial era o respeito” escreve Perel.

 

A autora descreve com lirismo e muita delicadeza o entendimento que representa o amor em um passado não muito distante. Afirmo não ser muito distante porque consegui reconhecer minha mãe, Aurora, nesse contexto. Ela falava com orgulho sobre os cuidados com a rotina doméstica através da frase “aqui em casa tudo passa por minhas mãos”. 

 

Dessa forma resumia sua forma de amar, através do ato de lavar roupas, em uma época em que lavadora de roupas ainda não havia chegado no vilarejo onde morávamos. Passar toda roupa à ferro aquecido em brasa de carvão, auxiliar meu pai na ordenha das vacas  e na criação de porcos para nosso consumo era sua forma de amar. Tudo isso sem deixar de lado idas regulares a um salão de beleza que “encrespava os cabelos” e sempre passando batom carmim em seus lábios antes de sair do quarto pela manhã para iniciar a rotina diária.

 

Ao final do dia, quando meu pai retornava do quartel, o auxiliava a descalçar seus coturnos antes de compartilharem o chimarrão. Ouvi dela frases que revelavam muitas crenças sobre a indissolubilidade do casamento, como: “Deus nos uniu, Deus nos separa” ou “Ruim com ele, pior sem ele”. Para Esther Perel, o amor no casamento podia se desenvolver com o tempo, mas não era indispensável ao sucesso da família.

 

O casamento era primordialmente uma questão de subsistência econômica, era uma parceria vitalícia. Eu fui testemunha dessa construção conjugal observando meus pais.

 

Considero-me uma verdadeira ponte entre o padrão “do mundo antigo” com “o mundo novo”. Ainda falarei, em algum dia, o quanto as pontes trazem profundo significado em minha existência. Também sou da geração que acompanhou a ascensão da intimidade e super me identifico com o terapeuta familiar Lyman Wynne, referido por Esther Perel, que diz “a intimidade só passou a ser reconhecida como ‘necessidade’ quando se tornou mais difícil de obter”. Minha cidade natal, Uruguaiana, naquela época também se assemelhava a uma aldeia, onde tínhamos nossa tradição, como visitar nossos avós, reuniões em família, horário para a lição de casa diariamente, celebrações religiosas como receber a bandeira do Divino Espírito Santo em nossa casa, a exemplo do que acontecia com as demais famílias; o ritual da Páscoa; a Missa do Galo celebrada à meia-noite do dia 24 para o dia 25 de dezembro, Natal e outras tantas.

 

Casei aos 21 anos com Sérgio, pai dos meus filhos, e viemos morar na capital, considerada cidade grande, onde éramos a única referência um para o outro. Hoje como terapeuta percebo o significado desse desafio.

 

“Sabíamos tudo sobre o outro, mas desconhecíamos nossa essência, inclusive o risco da perda pelo interesse mútuo. Se nada resta a esconder, nada resta a procurar” lembra Esther Perel .

 

Somente após a leitura compartilhada com o grupo do @serterapeutadecasal fui entender o motivo pelo qual me senti tão profundamente tocada pelo conteúdo do capítulo 3 do livro SEXO NO CASAMENTO. Conectou com minha história de vida tanto em relação a minha ancestralidade quanto a minha vida conjugal daquela época.

 

“Um violinista no telhado nos lembra que até mesmo as atividades corriqueiras do dia a dia criam, com o passar do tempo, uma rica tapeçaria de conexão”. Essa linda citação de Esther Perel nos conecta amorosamente como se fosse uma obra rara ao entrelaçar o tecido conectivo de nossos vínculos em suas mais variadas matizes e texturas. Grande verdade!

Alice Dias Camargo

Nutricionista Clínica aposentada, pós-graduada em Terapia Individual Familiar e de Casal – Abordagem Sistêmico-Integrativa. Instituto da Família (INFAPA) de Porto Alegre, RS – 2007 e pós-graduada Lato Senso – Curso de Especialização em Terapia Sistêmico-Cognitivo de Famílias e Casais – Faculdade Mário Quintana – Credenciada pelo MEC através da portaria n 191/2015. Coautora do Aplicativo “Amar é…” com a tutoria da psicóloga Tatiana Peres – 2019 e do Baralho da Escrita Criativa-Editora APMC – primeira edição – São Bernardo do Campo -2020. Com a tutoria de Léia A. Faustino. Idealizadora do Projeto @Casos_no_caos – Recurso Terapêutico Gameficado para trabalhar conflitos por Infidelidade Conjugal.

 

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